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Você & eu
Você é mais Gil
eu sou mais Caetano
você é mais Gonzaguinha
eu sou mais Chico
Você é mais Adoniram
eu sou mais Cartola
você é mais Milton
eu sou mais Vinicius
Você é mais Bandeira
eu sou mais Drummond
você é mais Mário
eu sou mais Oswald
Você é mais Almir
eu sou mais Helena
você é mais Elis
eu sou mais Clara
Você é mais Erasmo
eu sou mais Roberto
você é mais Frejat
eu sou mais Cazuza
Você é mais Rita
eu sou mais Mutantes
você é mais Morrison
eu sou mais Morrissey
Você é mais Lennon
eu sou mais McCartney
você é mais Reed
eu sou mais Dylan
Você é mais Elvis
eu sou mais Berry
você é mais Little
eu sou mais Jerry Lee
Você é mais Nina
eu sou mais Bethânia
você é mais Jazz
eu sou mais Blues
Você é mais Anos Incríveis
eu sou mais TV Colosso
você é mais Audrey
eu sou mais Greta
Você é mais Godard
eu sou mais Truffaut
você é mais Sofia
eu sou mais Campion
Você é mais cinema de rua
eu sou mais cinema de casa
Você é mais sobrado
eu sou mais janela
Você é mais All Star
eu sou mais Goóc
você é mais direita
eu sou mais torto -
Toda cheia de nomes
Ela é pequena,
mas tem dois metros de altura.
Talvez grupos de nuvens
embaçam mais a visão.
Quem sabe o que é motivo de encanto
para esta prosa,
presa, cheia de pressa,
de proeza verbal?
Será ela tabuada de lembranças
que some todos os sentimentos
documentados em alguma parte
de parte alguma?
Faço-me de destroço verbal
que busca corromper
todo aquele alforje de memória
mesmo cifrada de histórias.
Quiçá, seja ela,
silêncio demais
naquela seresta secreta.
Ou silício, elemento desconhecido.
Quem sabe, saliente,
mesmo sendo cívica no olhar.
Ela, sendo várias,
toda cheia de nomes.
E tudo que resta
é a vontade de magoar
toda aquela solidão repleta de frestas. -
Ainda sem nome
Guardemos o coração doente.
Tomemos remédio etílico
para curá-lo.
Como fazer crer,
a outro coração
imerso em ambiguidades e pontes inacabadas,
a cura de outro coração ajustado
no infalível e medido sentimento?
Amor,
que fórmula propor
para o combate de células de consternações?
Deixe-me, apenas,
subornar tuas tristezas
com o dízimo da minha paixão. -
Eu sonhei que tuas mãos vadiavam
Eu sonhei
que as tuas mãos vadiavam
nos meus cabelos
e que sambavam pelas praças
iluminadas, cheias de bênçãos.
Te falei
que alagaste de folia
o meu viver
e que a saudade quer sublimar
todo o silêncio e a escassez.
Te pequei
e és agora meu pecado, apenas meu.
Meu pisar manso, o andar descalço
que vai querer o teu sofrer.
Vou dizer
que tenho coisas que invadem o peito
e não sei porque
antecipo a minha alma
pra se ajeitar toda em você. -
Paraíso perdido
É comum
dar de ombros.
Até os ombros cansam
de dar os ombros.
Mas dão
ainda que ressabiados
e, assim, respiram,
do ato de dar;
esperança mínima repousa
no estoque de manhãs.
Restou o tempo
entretido entre a memória e o plano.
Ou aquilo que a memória já espremeu.
Ou daquilo que a memória
já espreitou
entre as fissuras do futuro,
escorada em defuntas crenças.
Triste é não ter um verso que explique.
Mas resta.
Até porque a tradição da espera
compreende um precoce artifício
daquilo que não foi,
não vingou.
Não floreou no cimento cinza.
Do quê? Para quê? Por quem?
Não há pronome
que vista o destino preguiçoso de explicações.
Do aspecto árido,
cenário estéril de resoluções,
resta sonhar
sobre esta planície grávida de sonhos.
Um fim, unânime,
persiste e hesita. -
Nesse lance
E essa vontade absurda
de andar naquele alfabeto rude de olhos
que penso:
que memória é esta
que nem foi criada
e já consome
à semelhança do conserto
à semelhança de amar?
Que mar é aquele
pleno de delicadezas
que sensibilizam conselhos
imersos em genocídios de saudades?
Para onde os amores em vão,
vão, mesmo nas expectativas de combustão,
ainda que para outros corações?
Por que não se arriscar,
nos riscos e caprichos do destino,
nesse lance de amar,
nesse lance dolorido? -
Ainda que sendo diverso
Ainda que distante,
ainda que ausente,
ainda que proibido,
presente, mesmo olvidado.
A infância na praia,
cheias de geografias fantásticas do corpo feminino,
foco de paciência e compreensão do outro,
enxerga hoje apenas a inimiga íntima.
Experiência com a palavra
neste limite constante em que ela parece
dissolver-se em outra coisa,
areia, mato, cachorro, palavra, serpente, encanto.
E mesmo longe do necessário,
do amor, paz, paterno, sideral,
nesta milagrosa sobrevivência de achados,
encarno o malabarismo do singelo:
superação aqui e ali, de tudo,
ainda que sendo diverso. -
Ensaio sobre uma cegueira iminente
Ele tinha um quadro de cegueira irreversível. Nem pudemos falar calmamente. Eu estava no meio de um trabalho, ele, querendo visitar a exposição onde eu fazia um bico. Não sei seu nome, sobrenome, idade, estilo de vida. Lembro-me da camisa verde estampada, do cabelo curto, crespo, e do olhar timidamente confuso. Mas não digo confuso no sentido psicológico do verbo. Confuso, sim, como se os olhos estivessem indecisos no sentido de olhar como registro ou olhar apenas por divertimento.
Ele não conseguia ler as informações espalhadas na exposição. Ao querer chegar mais perto, ultrapassava a faixa de segurança das obras e era alertado por um segurança da ultrapassagem proibida. Voltou reclamando ternamente e aí me disse da cegueira sem cura.
- Mas como assim? Você vai ficar cego, cego mesmo?
- É! - disse ele. - Voltei porque não deu pra ver as letrinhas. Vou ficar cego sim. Foi o que o médico disse.
- Então, até os 40 anos você já tá cego?
- Isso! - Mas e aí? - perguntei. Ele só riu, trocamos duas, três palavras, pegou a bolsa e saiu.
Há um livro interessante sobre isso: “Histórias de Literatura e Cegueira”, do jornalista e escritor Julián Fuks, que vale a pena ser lido. Imediatamente lembrei-me de Jorge Luis Borges, mestre da literatura argentina que foi embicado por uma cegueira ao longo da vida. Também veio a lembrança de João Cabral de Melo Neto, poeta recifense dono da maior dor crônica de cabeça do mundo. Este também padeceu nas mãos da cegueira no auge da doação literária. Outro, que lembrei depois, foi James Joyce, autor irlandês que li pouco, mas que teve os olhos fulminados pelas trevas e penou para escrever “Finnegans Wake”, sua obra-prima.
Fico a imaginar como é a preparação que antecede esta escuridão silenciosa. Como treinar os olhos, acostumados a discernir cores, tipos de blusas, variações de sóis, a divisar rotas e caminhos alternativos, como domesticar os olhos que, de certa forma, já não fazem mais com eficiência sua função de registrar a realidade? De que forma os olhos, tão acostumados ao real, lidariam com o abstrato e o impressionismo do irreal?
Ele, o visitante sem nome, poderia fazer como a americana Amy Hildebrand, por exemplo, que nasceu cega por causa do albinismo. Após tratamentos, ela começou a enxergar vultos, formas e cores. Fotógrafa profissional, mantém o blog “With Little Sound”. Além dessas limitações, Amy consegue registrar o que vê, ainda que não enxergue. Entre ver e enxergar há distintas definições que variam de sensibilidade a sensibilidade.
Tenho miopia e astigmatismo altíssimo. Sou um refém das más impressões sem meus óculos. Viro prisioneiro de qualquer letreiro de ônibus mal iluminado quando estou sem. Ler, então, é uma via crucis granulada que dura segundos sem minhas lentes. Logo os olhos ficam cansados do registro ocular e pedem arrego. Já até fiz experiências infantis de tapar os olhos e mirar a escuridão. Mas nada que se associe à cegueira irreversível. Nada confrontável a esta iminência de trevas.
Eu, no papel deste cego que aproveita os finados instantes de claridade, nem saberia a quem ou ao o que recorrer. Talvez avançasse naqueles romances ou livros de poesia nunca lidos, sempre adiados por razões e preguiças várias. Talvez tivesse coragem de pagar 600 patacas para ver Bob Dylan me enrolar cantando “Like a Rolling Stone”, mesmo com aquela harmonia estranhíssima.
Mas entendo que o mais provável seria embrenhar-me nos quatro cantos do mapa múndi só para achar aquela mulher que nunca pude olhar nos olhos para, diante de luz ou sombras, confessar esta saudade inominável.
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Pedriniano nº 1
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Feitio de coração
Eu prometo um abandono
cuja agora não suma, mas some
e que por um instante,
sobre a vida que se entreabre
nos reste esta noite de causa,
esta noite de insônia.
Intimar-te.
Perdi os olhos que tinha de criança.
Hoje sou feito apenas de intenção ou lembrança.
